GUCA DOMENICO

Show: Língua de Criança traz Guca Domenico ao Teatro

A quarta-feira, 24, será toda dedicada às crianças. Durante o dia no Centro de Convivência as crianças terão atividades especialmente preparadas para elas no A(o)Gosto das Letrinhas. À noite Guca Domenico apresenta o show Língua de Criança no Teatro Municipal, oportunidade de conferir o trabalho que apresenta brincadeiras com a sonoridade das palavras, mostrando como é possível fazer música inteligente para o público infanto-juvenil. O show é recomendado para todas as idades, e os ingressos custam R$ 3,00. Confira abaixo entrevista ao Balaio:

 

Quais as diferenças entre fazer músicas para crianças e para adultos?

Fazer música para criança é uma tarefa das mais difíceis porque, em geral, a idéia que se tem sobre o universo infantil é que ele é infantilóide. Não é. Crianças são ligadas e não gostam de ser feitas de bobas. É preciso ter cuidado na abordagem para que se estabeleça uma ligação de confiança entre o público e o artista. Uma vez conseguido isto, a relação é muito prazerosa, cúmplice. Escrever música para adulto é muito mais fácil. Pegue, por exemplo, a veia romântica. O ouvinte apaixonado aceita qualquer coisa desde que esteja eivada de sentimento. A criança é mais exigente, ela quer ser instigada a descobrir, adora novidade.

 

Como é o mercado de música para crianças? Você vai lançar um CD com as músicas de Língua de Criança?

O mercado de música para criança é vasto e pouco explorado. Hoje, se encontra todo tipo de música direcionada ao público infantil, desde as re-leituras das cantigas de roda, trabalhos autorais (como faz o Palavra Cantada) até pretensos hits com música de gosto duvidoso, só para faturar mesmo. É um mercado democrático. Eu sinto um grande prazer em fazer shows. O contato direto com o público é inigualável, as reações das crianças são maravilhosas. Uma vez, fiz um show num CEU, escolas-modelo da prefeitura de São Paulo. Era um show na periferia. Teatro lotado, 700 pessoas, a maioria crianças acompanhadas de pai, mãe, avó, irmão mais velho. Foi uma experiência fantástica. Ouviram durante uma hora 90% do repertório inédito de músicas minhas. Os outros 10% nem sei se tinham ouvido, desconfio que não. Era a História de Uma Gata, do Saltimbancos, Sítio do Picapau Amarelo, do Gilberto Gil, e A Casa, de Toquinho e Vinícius. E algumas cantigas de roda, como Escravos de Jó e A Menina que Está na Roda. Ao final do show, fui rodeado pelas crianças que invadiram o palco. Uma das minhas maiores emoções na carreira. Por causa desse tipo de repercussão, pretendo gravar um CD com minhas músicas. Sou bastante cobrado nesse sentido. Algumas pessoas até me xingam de burro porque não tenho disco pra vender depois do show...

O que o mercado musical oferece hoje como produções voltadas para crianças?

Pouca coisa em termos de qualidade, infelizmente. Aquelas produções como Saltimbancos, Arca de Noé, etc., estão cada vez mais raras. Eu pretendo suprir essa necessidade, quero fazer um disco pra gente pequena com produção de gente grande. Há exceções, mas falta divulgação na mídia por falta de interesse de mão dupla entre a indústria e os meios de comunicação.

 

Você classifica seu público infantil como “gente inteligente”. Quais as características desse público, que merece esta definição?

Quando opto por escrever canções destinadas ao público que não tem as ferramentas intelectuais para discernir o que é uma cacofonia sonora ou uma aliteração, e mesmo assim uso mão desse recurso, estou dizendo: "confio na sua inteligência e sensibilidade para sacar minha brincadeira com a palavra". Porque uso muito o recurso lúdico para fazer chegar a informação (que também é formação) e não deixar a coisa pesada. A gente ensina melhor se brincamos com os sons e os sentidos.