MAURÍCIO CARRILHO

1. Entrevista com Maurício Carrilho feita por Neusa Fleury, publicada na edição 41 do Jornal Balaio Cultural de julho de 2011

Um Chorão e o Rei do Baião

Maurício Carrilho e grupo fazem show no Teatro Municipal no dia 22 de julho, às 20h30. Veterano do Festival de Música de Ourinhos, onde coordena as oficinas de Composição e Prática de choro, Maurício é também um dos diretores da Escola Portátil de Música, mantida pelo Instituto do Choro, no Rio de Janeiro. A entidade é a principal organização destinada à preservação da memória do choro no país. Prestes a ocupar um casarão tombado no centro da capital carioca, o Instituto do Choro vai abrigar um Centro de Pesquisas com 10 mil partituras que poderão ser consultadas pelo público. O choro pode ser encontrado em regiões diferentes do país, e possui núcleos organizados em Brasília e São Paulo. Porém, é no Rio de Janeiro onde encontra maiores ad-miradores. No Festival de Música de Ourinhos o gênero está presente há anos, formando e motivando o surgimento de grupos. Na entrevista ao Balaio, Maurício conta como será o show em homenagem a Luiz Gonzaga:

 

O show que você vai apresentar no Festival de Música de Ourinhos vai mostrar choros de Luiz Gonzaga. São músicas inéditas? Você pode dizer em qual contexto Luiz Gonzaga, conhecido como o Rei do Baião, enveredou pelo choro?

Nós vamos tocar composições do Luiz Gonzaga que foram gravadas por ele. São choros, valsas, polcas, músicas do universo do choro que já tiveram pelo menos uma gravação, portanto não são inéditas. O Luiz Gonzaga, assim como o Sivuca, o Hermeto, o Dominguinhos, pra ficar só nos acordeonistas, é mais um exemplo de como o choro é importante, na história de nossa música, como gênero formador de grandes músicos. Antes de se tornar o Rei do Baião, Gonzagão foi pro Rio de Janeiro tocar no Regional do Canhoto (que acabara de deixar de se chamar Regional do Benedito Lacerda por conta da aposentadoria do grande flautista). Gravou vários choros sempre acompanhado deste Regional (que tinha Dino e Meira nos violões e Canhoto no cavaquinho) e, despretensiosamente, gravou cantando e obteve um sucesso estrondoso que mudou o rumo de sua carreira. Assim ele se tornou o Rei do Baião depois de já ser ótimo músico de choro.

 

Pessoas próximas a você, como seu pai e seu tio, tiveram contato com Luiz Gonzaga. Como foi isso?

Meu tio Altamiro gravou com ele, e meus professores de violão, Dino e Meira, participaram de praticamente todas as gravações feitas por Luiz Gonzaga. Aliás ele tinha um hábito muito curioso que demonstra sua grande generosidade. Ele adorava presentear, com instrumentos musicais, músicos por quem tinha admiração, amizade, ou jovens talentosos que não possuíam instrumento. Contam que ele distribuiu dezenas de acordeons, ao longo de sua carreira. O trio Dino, Meira e Canhoto também foi presenteado por ele em 1950. O Meira, a partir desta data, só usou o Del Vechio que Luiz Gonzaga lhe dera de presente, em shows e gravações. Este violão me foi dado de presente pela filha do Meira, Ivone, 20 anos após a morte do meu mestre. É lógico que vou levá-lo para participar desta homenagem. Ele, o violão, também tem que ser homenageado.

 

O trabalho do Instituto Casa do Choro também está focado no resgate de partituras e material sobre o choro, como foi feito recentemente com a obra de vários compositores. Quais as dificuldades encontradas?

Acho que a dificuldade maior é o começo, a saída da inércia. Depois que a gente começa este tipo de trabalho, as pessoas vão tomando conhecimento e acabam ajudando a canalizar pra nosso acervo vários artigos, não só partituras, mas discos, fotos, instrumentos, documentos, etc. Hoje nós estamos com uma equipe de monitores da Escola Portátil de Música trabalhando na digitalização de nosso acervo de partituras. Mas não paramos de receber preciosidades vindas das mais variadas procedências.

 

Sendo o choro um gênero conhecido pela espontaneidade e caráter mais intuitivo, quais as dificuldades em se manter uma escola de choro formal como a Escola Portátil de Música?

Na verdade, quando a Casa do Cho-ro ficar pronta, e esperamos que isto aconteça já no ano que vem, vamos poder nos estruturar como uma escola de choro formal de nível técnico. Por enquanto temos um projeto de educação musical a partir da linguagem do choro. Estamos sistematizando um saber que foi passado, durante 150 anos, de geração para geração, nas rodas de choro, encontros informais, na troca de partituras, etc. No século XX a gravação de discos se torna outro meio muito importante de se transmitir esse conhecimento. E hoje, com a tecnologia digital a nosso dispor, temos a obrigação de fazer esse legado chegar ao maior número possível de interessados nessa linguagem musical.

 

Como outros gêneros musicais, o choro também se transforma, recebendo influências diversas. Como você vê essa transformação, e de que forma podem ser mantidas características tradicionais?

Realmente toda música é viva, e o choro é a música viva mais antiga do mundo, recebe influências e se trans-forma o tempo todo. Acho que o músico bem embasado, conhecedor dos fundamentos de uma linguagem musical, pode fazer uso de elementos de outras culturas sem que isto deforme ou deturpe sua linguagem de origem. A gênese do choro foi assim: a mistura de gêneros europeus com um jeito mestiço, afro-brasileiro, de tocar. Não podemos ficar com preocupações puristas num mundo em que a informação e, principalmente, a desinformação, correm em velocidade absurda. Nossa preocupação, o foco do nosso trabalho didático, é dar a base do choro com toda sua riqueza rítmica, harmônica e melódica, aos nossos alunos. A partir desses conhecimentos eles vão poder se reconhecer como músicos brasileiros, terão orgulho de sua música, e principalmente estarão livres pra buscar onde quer que seja, outros elementos e, informações que julguem importantes para o desenvolvimento de seu trabalho.

 

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Julho de 2012

 

2. Choro do Século XXI

Dia 20, o encontro de alguns dos mais atuantes e representativos músicos de choro da atualidade levará ao palco do XII Festival de Ourinhos um repertório totalmente inédito. Composições como Influente, de Cristóvão Bastos, Meu Sax sorriu, de Nailor Proveta e Maurício Carrilho, e Mensageiro, Pedro Paes, são algumas das composições que serão interpretadas por seus próprios autores e ainda contando com a participação de Luciana Rabello, Paulo Aragão, Aquiles Moraes e Marcus Thadeu. A apresentação dará uma panorâmica da obra contemporânea do choro, abrangendo vários ritmos que constroem a linguagem do choro.

Em um papo descontraído com a equipe do Balaio Cultural, Maurício Carrilho fala sobre o choro da atualidade, a Escola Portátil de Música no Rio de Janeiro, dirigida por ele e composta pelos principais músicos do gênero, herdeiros do tradicional choro carioca e também sobre as dificuldades em inserir a boa música brasileira em meios de comunicação populares, confira:

 

Qual a diferença do choro produzido antigamente, anos 40 e 50, para o choro contemporâneo? Como é aceitação do público atual?

Os anos 40 representam um marco para a forma clássica do choro. Tivemos as gravações de Benedito Lacerda e seu Regional com Pixinguinha que são, até hoje, referência para quem se interessa por esse gênero. Nos anos 50 o choro viveu um momento muito rico de renovação de sua estrutura harmônica e melódica, com o trabalho de Garoto, Radamés Gnattali, Moacir Santos, Altamiro Carrilho. Hoje temos outras gerações em atividade. Depois de um período de grande dificuldade, vivido entre a segunda metade dos anos 80 até o início dos anos 2000, o choro vive um dos períodos mais promissores de sua história centenária. Observamos o surgimento de músicos extraordinários além do avanço na produção de instrumentos de qualidade, organização de material didático, levantamento de repertório e discografia dos grandes mestres e uma produção contínua, numerosa e de ótima qualidade por parte de vários compositores. Melódica e harmonicamente o choro evoluiu muito nos últimos anos. Mas acho que isso só será percebido pelas pessoas daqui a uns dez, vinte anos. Infelizmente ainda há uma grande dificuldade em se fazer uso democrático dos meios de comunicação no Brasil. Existe um sistema corrompido e viciado que se alimenta da ausência de conhecimento e senso crítico para veiculação de "produtos culturais" sem ne-nhum conteúdo, deixando de lado o que é produzido de melhor em nossa música.

 

A Escola Portátil de Música é um dos principais núcleos do choro carioca. Como é esse ambiente de estudo que reúne jovens músicos no Rio de Janeiro?

A Escola Portátil de Música é um projeto que existe há 12 anos. Oferece a oportunidade de estudo prático e teórico da linguagem do choro. Contamos com mais de 1000 alunos inscritos regular-mente em 2012, além de vários estudantes de fora do Rio que frequentam aulas avulsas. Acho que além de formar músicos, platéia de qualidade e trans-formar a cena musical carioca, a EPM deu aos jovens músicos estudantes de choro consciência da importância desta música, elevando sua auto-estima, seu orgulho em tocar Música Brasileira. Isso está fazendo muita diferença.

 

Como é o interesse dos músicos de outros países pela linguagem do choro? Existem projetos que possibilitem esse intercâmbio musical?

Outros projetos e escolas têm contribuído para o estudo de várias linguagens musicais, e mesmo do choro em particular. Te respondo à entrevista de Toulouse, na França, onde estou participando, ao lado de dois professores da Escola Portátil de Música (Jayme Vignoli e Naomi Kumamoto), do 5º Encontro de Choro de Toulouse. Organizado pela Casa do Choro de Toulouse, este encontro contou com a participação de 60 alunos, músicos de choro vindos de várias cidades da França e de outros países europeus. Esta realidade é nova e mostra o interesse crescente pelo choro em vários países. O resultado do encontro foi muito bom e mostrou o progresso que os jovens músicos franceses têm feito no choro.