Bakhtin e as três cidades*

- uma topografia do exílio –

Na Kustanai dos ventos extremos

como pode um homem acercar-se do mundo

se não o tiver em si, crescido?

E se já o tem assim,

como o mantém contido?


Em Saransk, às margens do rio,

as linhas de ferro ligavam os pontos

e não lhe faltaram cigarros

para carícia dos dedos.

Ali abasteceu-se melhor do mundo,

mas a serpente sonolenta da fome

dava voltas pelo Volga.

O bom demônio Bakhtin,

em quem habitavam tantas vozes,

ludibriava a fome física

com fome polifônica, dando aulas.

Ensinava tantas disciplinas literárias em Saransk

que tornou-se o departamento inteiro

de uma tentativa universitária.

 

Recrudesceu o expurgo de Stalin,

por todos os caminhos de Bakhtin.

Mas seu corpo frágil, erva fácil,

de novo escapou,

de Saransk para Savelovo,

aldeia de três ruas e casas de madeiras grossas.

Savelovo, mais próxima de Moscou,

o grande coração; a bomba de sangue.

Perto da cidade-mundo cresce forte

a dor de estar de fora:

olha-se para ela com a lupa do desterro.

Adoecido, Bakhtin deixa às portas de Moscou uma perna,

para que no dia em que enfim a adentrasse, livre,

já lhe tivesse lembrado a perda...


* Mikhail Bakhtin (17/11/1895 – 06/03/1975) – sociolinguísta e filósofo russo, hoje reconhecido como um dos grandes teóricos da cultura por obras como “A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento - O contexto de François Rabelais”, “Marxismo e Filosofia da Linguagem”, “Estética da Criação Verbal”, entre outras. Foi um dos muitos pensadores perseguidos pelo stalinismo. Felizmente, um dos que conseguiu escapar. Devemos-lhe uma limpa compreensão da vida social da linguagem, e do dialogismo como coração das múltiplas redes de influência que acontecem entre os escritores, os artistas, os cientistas e, principalmente, os falantes humanos que todos somos. Esse poema, mais que uma homenagem, quer pensar o terrível que é um ser humano inteligente e generoso ser privado de conviver em plena potência no mundo.