Aldício Passos


Marco Aurélio Gomes conta a história de Aldício Passos, o Mochila, que nasceu em Agrestina (PE) e hoje trans-porta alunos em Ourinhos. O depoimento de Aldício integra o módulo Memória Nordestina, do Arquivo de Lembranças, projeto de preservação da memória realizado pela Secretaria Municipal de Cultura

 

É mesmo cheio de histórias o motorista conhecido pelo apelido de Mochila. Foi admitido na Prefeitura Municipal de Ourinhos no dia 9 de abril de 1992 e só depois de trabalhar como ser-vente, função para a qual prestou concurso público e foi aprovado em primeiro lugar, é que resolveu trocar a colher de pedreiro pelo volante de um carro, e se transformou num ‘condutor de vidas’, como gosta de dizer. Há onze anos é motorista do setor de transporte escolar.

Antes disso havia cortado cana, trabalho pesado que considerava mais próximo do que estava habituado antes de vir para Ourinhos. Em Agrestina, cidade onde nasceu e que está localizada a 155 quilômetros de Recife, a capital pernambucana, não era cana que plantava, mas feijão e milho na roça cultivada pelo pai, José Antonio dos Passos. Aliás, Aldício dos Passos, nome pelo qual foi registrado pelo pai, é um dos trinta filhos de seu José. É filho da primeira esposa, dona Maria de Lurdes da Silva, com quem o pai teve vinte e dois filhos. Os outros oito são filhos do segundo casamento.

Agrestina surgiu às margens do Rio Mentirosos, e seu nome vem do fato de estar encravada no coração do agreste pernambucano. Era ponto de parada de sertanejos retirantes e foi emancipada pela lei estadual nº 1931, em 11 de setembro de 1928. Hoje a cidade conta com pouco mais de 20 mil habitantes e, conforme consta na página oficial da prefeitura na internet, a renda da cidade vem do comércio informal, da agricultura e das microempresas de costura. Agrestina promove festas tradicionais católicas e possui comunidades quilombolas, formada por descendentes de escravos foragidos.

Além da tarefa árdua de ter de carregar uma plantadeira manual que quase ultrapassava a sua própria altura, era função do menino Aldício buscar água para beber, caminhando cerca de três quilômetros com latas d’água que saciavam a sede da família. A irmã chegava a advertir o pai sobre o excesso de peso da plantadeira. Mas seu José respondia: “Não vai embora estudar. Aqui tem uma plantadeira sobrando. Se não agüenta cheia, carregue pelo meio.”

Mas Aldício chegou a estudar na escola instalada no sítio, e lembra que “do 1º ao 5º ano estudavam todos juntos, e a professora que dava aula também fazia a merenda”. Diante das dificuldades todos acabavam ajudando a professora a preparar a sopa de macarrão, “com um pouco de colorau para dar cor”. Depois de comer, todos tinham que lavar a louça. Muito diferente dos alunos que hoje se fartam dos salgadinhos engordurados servidos nas cantinas de muitas escolas. Aldício lembra também da avó, benzedeira e rezadeira de terço, conhecida na região. “Era benzedeira de criança, mas também benzia pessoas com espinha de peixe enroscada na garganta. Só não gostava quando as moças pediam um auxílio para arrumar namorado”, recorda o neto.

A região sofria com os meses de seca, período no qual a chuva se ausentava completamente, tornando o lugar ainda mais difícil se viver. Fora do período de seca, o trabalho na roça ocupava a maior parte do tempo. A técnica de plantio em que milho e feijão eram semeados ao mesmo tempo garantia o alimento da família durante boa parte do ano. Feijão com farinha, e às vezes uma mistura, formavam o cardápio mais rotineiro.

Aldício explicou também que os mortos eram velados em casa. “As pessoas queriam que o doente morresse em casa, com uma vela acesa na mão, para garantir que fosse por um bom caminho. Eram enterrados em caixões, mas no chão. Os mais antigos ainda eram enterrados na rede.”

É claro que o lugar também tinha seus divertimentos. Os bailes eram realizados nas ‘palhoças’, espécie de salão coberto com palha de coqueiro, muitas vezes montado sobre o chão batido. A soberania masculina não permitia que a mulher que não quisesse dançar permanecesse no salão. “Se ela estivesse no salão desacompanhada, tinha que aceitar o pedido do cavalheiro. Ele pagou, ela tem que dançar”. Ou seja, elas não pagavam, mas não podiam recusar o ‘cavalheiro’. Os tempos mudam e hoje a cidade é administrada por uma mulher.

Aldício nasceu no dia 12 de maio de 1972 e não conhece ninguém que tenha sido batizado com um nome igual ao seu. Quando resolveu sair de Agrestina, aos quinze anos, e se aventurar em busca de uma vida melhor no sul do país, veio diretamente para Ourinhos. Chegou no dia 19 de outubro de 1987, às 5 da manhã.

Alguns irmãos já estavam por aqui, empregados e adaptados. Depois dos dois anos e quatro meses no corte de cana, trabalhou como servente de pedreiro e ajudou a construir a COHAB, na Vila Odilon.

Mais tarde conheceu Andréia, filha de um baiano, com quem se casou. Tiveram quatro filhos: Gilvan, Lucas, Jonathan e Amanda. O apelido Mochila vem logo do início do trabalho na prefeitura. Ele e um grupo de outros 25 funcionários foram escalados para remover uma cerca por onde passaria uma rodovia. Havia uma pausa para o café às 3 da tarde, mas ninguém levava lanche. Diferente dos demais, Aldício era o único que sempre carregava uma mochila com um pedaço de pão e um cafezinho. Não demorou para que o acessório carregado nas costas pelo pernambucano nascido em Agrestina e que adotou Ourinhos como sua cidade, se transformasse no apelido que Aldício carrega até hoje.

 

Texto: Marco Aurélio Gomes

 

Texto publicado na edição 37 do Jornal Balaio Cultural de março de 2011

 

 

Legenda 1 

Aldício Passos, o Mochila, foi cortador de cana, servente de pedreiro e hoje é motorista do setor de transporte escolar

 

Legenda 2

“Era benzedeira de criança, mas também benzia pessoas com espinha de peixe enroscada na garganta. Só não gostava quando as moças pediam um auxílio para arrumar namorado”. Aldício, sobre a avó