NICE NICOLOSI

A jornalista Tatiana Oliveira fotografou.

 

 


NICE NICOLOSI

Uma vida dedicada ao ensino da música

 

Nunca pensei que aquele muro, ao lado número 621 da Rua Rio de Janeiro, pudesse esconder um jardim repleto de avencas, begônias, e marias-sem-vergonha. Na sala da casa, o piano reina soberano entre a estante de livros e o contrabaixo acomodado no canto. A professora Nice Nicolosi inicou seus estudos numa época em que aprender a tocar piano constituía parte importante da educação das moças. Pelos menos para aquelas que vinham de famílias mais abastadas. “Comecei a estudar aos nove anos, com o professor Galileu Andolfo, o primeiro professor de piano de Ourinhos. Alston Racanello, as Matachana, e outras famílias colocaram as filhas para estudar com ele”, recorda dona Nice.

Desde muito cedo a música esteve presente em sua vida. Na infância, cantar e tocar eram atividades rotineiras na casa dos pais. Ela conta que “sempre tinha música na casa, meu pai tocava muitos instrumentos, de ouvido, mas tocava, e meu irmão tocava gaitinha de boca, enquanto Lúcia (a irmã) cantava com papai”. Quando se casou aos dezesseis anos, ainda “muito criança” como faz questão de frisar, deixou o estudo por um tempo. Para sua felicidade a interrupção não durou muito. Logo após a união, o marido Antonio Carlos comprou um piano. “Eu tocava aquelas músicas populares da minha época, músicas de filmes”, relembra.

Mais tarde, já na década de 70, começou a ter aulas com a professora Cida Melo. “O estudo com a Cida foi ótimo, o repertório era outro e eu ainda perguntava por que algumas notas tinham as hastes para cima e outras para baixo. Foi aí que descobri que aquelas eram vozes nas peças de Bach”, diz ela, reconhecendo a importância da fase que passou sob a orientação da professora Cida.

Nessa época já tinha seus alunos particulares. Logo depois, juntaram-se a eles os alunos da professora Cida Melo que, viajando para os Estados Unidos, recomendou a ex-aluna que assumisse a formação do grupo. “Eu comecei a dar aulas com mais freqüência”, atividade que dona Nice nunca mais abandonou.

Nice Nicolosi acompanhou todos os momentos que marcaram a atividade musical na cidade de Ourinhos. Do trabalho ao lado da amiga Cecília Einstoss no Laboratório de Atividades Musicais, em meados da década de 80, até as aulas para os integrantes da Banda Municipal, corporação musical que estava sob o comando do maestro Wilson Pereira, o Wilsinho. Sobre essa experiência, dona Nice relata que “o professor Granja, diretor de cultura na administração do prefeito Clóvis Chiaradia, sugeriu que eu começasse a dar aulas para a banda”. Naquele período as aulas aconteciam no fundo do Teatro Municipal Miguel Cury, onde a Banda ensaiava. “Era uma balbúrdia, um estudava uma peça aqui, outro ali, alguns estudavam nos banheiros, outros nos camarins, uma loucura”, revela a professora que, apesar das dificuldades, aceitou mais esse desafio.

Foi nesse contato com a Banda Municipal que dona Nice conheceu dois jovens músicos, o clarinetista Michel Moraes e sua irmã, a flautista Ana Carolina. Os dois logo se interessaram em fazer aulas com a nova professora. Com orgulho, ela lembra que já percebeu em Michel o interesse pela música de câmara. Michel Moraes continuou seus estudos e hoje, entre CDs gravados e viagens ao exterior, será também um dos professores do 9º Festival de Música de Ourinhos. Outro que passou por suas mãos, o músico e professor Marcelo Mello, também revelou desde cedo um talento especial. “Marcelo Mello foi meu aluno também nessa época. Ele tocou na primeira apresentação que eu fiz com os melhores alunos, quando tinha apenas 1 ano e 8 meses de estudo”, relembra com  satisfação.

  Hoje, dona Nice admite um certo cansaço. Embora tenha diminuído suas aulas na Escola Municipal de Música, ela faz questão de afirmar: “ainda tenho alunos que não me deixam parar, a Juliana, o Mateus...”. Juliana Vita é professora concursada da Escola de Música, onde ela própria se formou, sempre sob os cuidados de dona Nice, que a acompanha desde a sua iniciação. “O trabalho da Juliana me dá muito prazer, pois vejo que ela está dando continuidade ao meu próprio trabalho, passando aos seus alunos aquilo que aprendeu comigo”, diz ela enquanto nos serve um chá.

Quando perguntamos sobre o desinteresse dos alunos pelo piano nos dias de hoje, dona Nice lembra de uma entrevista com o maestro Júlio Medaglia, publicada no Balaio Cultural. Assim como o maestro, ela acredita que a mídia é responsável pelo desinteresse dos jovens pela música de qualidade. Porém, ela acredita que os pais também deve-riam facilitar o acesso dos filhos à boa música. “A criação da Escola de Música contribuiu muito. Hoje as crianças tocam violino, violoncelo, viola, instrumentos que eles nunca tinham ouvido falar na vida”, explica a professora.

Chegamos ao final da nossa conversa, pois a professora Nice Nicolosi tem um compromisso logo mais à noite. Ela vai assistir ao concerto da Orquestra Sinfônica Municipal no Teatro Miguel Cury. No palco, uma das solistas será a flautista Gilonita Pedroso, também sua ex-aluna.

 

 

Legenda da foto:

“A criação da Escola Municipal de Música contribuiu muito. Hoje as crianças tocam violino, violoncelo, viola, instrumentos que eles nunca tinham ouvido falar na vida”