JULIO MEDAGLIA

1. Entrevista com Julio Medaglia, publicada na edição 22 do Jornal Balaio Cultural de junho de 2009 - Maestro Júlio Medaglia: “A mídia é inimiga da boa música”

Considerado uma das maiores referências da música no Brasil, o maestro Júlio Medaglia concedeu uma entrevista exclusiva ao Balaio onde ele fala do panorama musical brasileiro, do ensino de música nas escolas e da omissão da mídia na divulgação da boa música. O maestro estará em Ourinhos durante o Festival de Música.

 

Como o Sr. vê o panorama da música popular hoje?

JM - A música popular brasileira vai muito bem. A nova geração de músicos estudou, teve contato com os melhores artistas das gerações anteriores e estão muito bem preparados para oferecer algo novo e bom. Não é mais aquela coisa intuitiva e ingênua do passado, não. O problema não é da música e sim dos meios de massa, que fecharam as portas para a música inteligente. A TV Globo, a mais importante máquina de entretenimento brasileira, há mais de 20 anos não coloca uma única música ou artista sequer no horário nobre. Como se fosse um país sem música.

 

E o cenário da música erudita no Brasil?

JM - Vai muito bem. Existem muitos jovens estudando com os melhores professores, a maioria destes formada na Europa e USA. Os projetos de “inserção social”, tipo Projeto Guri, Heliópolis e outros estão revelando grande quantidade de interessados e com talento.

 

Um dos grandes problemas para a efetivação do ensino da música nas escolas brasileiras é a falta de profissionais preparados. O Sr. tem alguma sugestão para se resolver isto?

JM - Tenho e uma sugestão muito importante. Felizmente foi aprovado o projeto que torna obrigatório o ensino musical nas escolas, pelo qual eu vinha lutando há anos, com várias viagens a Brasília. É importantíssimo iniciarmos logo esse ensino, sem grandes projetos pedagógicos. Deve ser feito urgentemente um plano básico curto e prático. Uma pessoa com conhecimentos razoáveis de música, com esse plano, deveria estar em condições de informar as novas gerações o quão grande é o universo da música do mundo. Exibições de DVDs, CDs, com a música dos grandes mestres, da MPB, do jazz, enfim, o que for música de qualidade. Fazer as crianças cantarem e tocarem instrumentos primitivos, fazer música coletivamente e com prazer. É urgente, já que o massacre da sensibilidade das pessoas via meios de comunicação é terrível e cada vez maior.

 

Os professores que irão atuar nas escolas, em sua maio-ria, são jovens com um gosto musical formado pela mídia. Dentro desta realidade, de que maneira a cultura brasileira e o folclore terão espaço dentro das escolas?

JM - A mídia é inimiga da boa música - ao contrário do que foi no passado. A pessoa que vai lecionar deve conhecer um repertório de qualidade de todos os tipos de música e seduzir o jovem com ele, informá-lo. Assim, quando chegar em casa e ligar a TV, pode dizer: “mamãe, manda prender esse cara que está cantando, pois ele está nos enganando...”.

 

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2. Entrevista publicada na edição 23 do Jornal Balaio Cultural de julho de 2009. O concerto da OSESP em Ourinhos será realizado num estádio de futebol, com a presença de milhares de pessoas.


O senhor acredita que projetos como esse contribuem para popularizar o gosto pela música clássica?

JM - Nossos conjuntos orquestrais devem, sim, fazer concertos dessa natureza, além daqueles que fazem para um público iniciado. É função da OSESP, como excelente orquestra, também exercer essa tarefa de “animação cultural”, a de aproximar novos públicos ao convívio da “música de concerto”.

 

No passado, o laço entre músicos e suas composições e o público eram os festivais. Hoje em dia, sem espaço na mídia, os músicos usam a internet para divulgar seus trabalhos. Em razão disso, qual sua opinião sobre o compartilhamento de músicas de graça na internet?

JM - A internet é a coisa mais genial criada pelo homem nos últimos tempos. Ela, porém, não provoca as pessoas a nada. A mídia é que inventa seus monstrengos musicais e excita o público a consumir - e descartar logo! - seus produtos. Eventos como o de Ourinhos - festival + concertos para grandes plateias - contribuem decisivamente para despertar a atenção e o interesse de novas gerações para outros tipos de repertório mais qualificado. Depois de motivado, o interessado deve ir à internet. Lá vai encontrar tudo e mais alguma coisa...

 

Como é seu trabalho como arranjador? O quanto existe de liberdade para criação num trabalho como este? Como é o mercado de trabalho para quem se dedica a fazer arranjos?

JM - O trabalho de arranjo é semelhante ao da composição. É necessário construir a ideia na mente e depois colocá-la no papel. Seja um trabalho próprio ou a partir de uma obra de outro. Arranjar uma obra, é o mesmo que traduzir um poema. Envolve um grande componente de criação.

 

O Festival de Ourinhos tem tradição em valorizar o aprendizado musical, por isso costuma atrair músicos interessados mais nos cursos do que na programação artística. Como você vê este evento enquanto valorização da música, tanto erudita quanto popular?

JM - Cursos e exibição artística se complementam. Os cursos mexem com a mente dos jovens. Eles devem sair daí com novas idéias e perspectivas na cabeça. Se tiverem contato com artistas de alto nível, solistas ou orquestras, isso pode contribuir para que ampliem seus horizontes culturais.