JOÃO CARLOS MARTINS

Entrevista com o maestro João Carlos Martins, publicada no Jornal Balaio Cultural de julho de 2008. Em entrevista ao Balaio, João Carlos Martins falou sobre o possível retorno do ensino musical nas escolas, defendeu a boa música, seja ela erudita ou popular,  e relatou a sua experiência com a obra do compositor alemão Bach.


Sua relação com a obra de Bach o acompanha desde o início da carreira. Sua visão da obra de Bach mudou com o passar dos anos? O que o faz ser tão especial?

Acho que cada artista desenvolve sua própria interpretação e, também, como sente a música do compositor. Obviamente, durante o curso de uma carreira inteira, experimentamos diferentes tempos e cores de uma mesma obra.

Um exemplo clássico disso é a minha interpretação de Bach agora como maestro, que é diferente do que foi a minha interpretação enquanto pianista. Duas formas distintas de ver a obra de Bach, mas com a mesma paixão pela música. E Bach é o maior gênio musical de todos os tempos. A música dele, para mim, é tão perfeita como a natureza.

Em Ourinhos o senhor irá solar ao piano um repertório eclético, com obras de Bach, Tom Jobim e Piazzolla, além de tocar uma obra de Villa-Lobos. Por que escolheu esses compositores?

Bach é, para mim, o maior compositor de todos os tempos, e me acompanhou durante toda a vida. Ele sempre será meu convidado de honra. Tom Jobim eu escolhi por três motivos: porque amo o Tom de paixão e ele representa o que há de melhor na música brasileira, porque estamos comemorando os 50 anos da Bossa Nova, e porque o maestro Mateus Araújo fez um arranjo lindo de Luísa que, tenho certeza, vai emocionar todo o público de Ourinhos! Mateus também é o responsável pelo arranjo de Adiós Nonino, de Piazzolla, compositor com o qual me identifico por conta da paixão dele pela música e a habilidade que ele tinha de compor melodias inesquecíveis.

O senhor sonha em voltar a dar recitais inteiros como pianista solista? O problema com a sua mão é irrevesível?

Nunca desisto dos meus sonhos. Por isso mantenho, aos 67 anos, uma disciplina de atleta e uma alma de poeta que me fazem continuar a lutar. Se irei voltar a dar recitais inteiros, eu não sei, ainda mais porque as limitações das minhas mãos são um grande obstáculo. Mas posso dizer que me realizo através dos meus músicos. Cada músico da minha orquestra representa hoje uma tecla do piano, este companheiro de tantos anos.

O Festival de Ourinhos privilegia a boa música, seja ela erudita, popular ou folclórica, sendo esse ecletismo sua marca registrada e um diferencial com relação a outro eventos do mesmo tipo. O senhor acha que o músico brasileiro é eclético ou há preconceito entre os músicos, sejam eles eruditos ou populares?

Eu acho que o Brasil tem grandes exemplos de músicos em todas as áreas da música. E, para mim, música é música. Existe, sim, música de qualidade e música sem qualidade. E devemos privilegiar a boa música, seja ela um baião, uma ópera ou uma bossa nova.

O Festival de Ourinhos é engajado com a volta da música nas escolas. O que o senhor pensa em relação a esse assunto?

A música é essencial no desenvolvimento do ser humano. Nos projetos sociais da nossa Orquestra Bachiana Jovem, quando nos apresentamos pelo interior do país e na periferia das grandes cidades, podemos ver como as crianças se deixam encantar pela música e como ela pode ser fonte de inspiração para elas. Crianças que nunca tinham visto antes um violino ou tinham ouvido uma suíte de Bach apreciam a música como se ela fosse uma companheira de muitos anos. É um milagre. Para mim, a volta da música nas escolas deveria ser uma bandeira de todos os políticos e da sociedade.