Noções de Leitura

Para o século XXI, leitura semiótica!

Ler, ler, ler... Falamos constantemente da importância de ler, de ter bons livros acessíveis, de iniciativas de incentivo à leitura entre crianças e jovens, de mediação de leitura e assim por diante. Essa insistência no âmbito de ações culturais e educacionais realça o merecimento do assunto, mas ainda vivemos o termo “leitura” com efeito de dormência.

 

Acomodações de linguagem são acomodações de inteligência. A linguagem não representa apenas as formas de expressarmos o mundo, mas organização imaginária do mundo. Em relação à “Leitura”, é necessário chacoalhar o pó que o tempo assentou na palavra, de modo que ao termo possa convergir uma gama possível de significados e repertórios que orientem ações culturais.

 

Inicialmente, percebe-se que na tradição ocidental, “leitura” é considerada e ensinada como decifração do material verbal e da palavra escrita. Associamos o prazer e a necessidade de ler à leitura da poesia, da literatura ou dos escritos vinculados aos vários conhecimentos científicos, técnicos e de humanidades.

 

Essa leitura verbal é suficiente para a interpretação e compreensão de tantas formas de expressão, hoje tornadas mensagens no cinema, no rádio, na televisão e na internet? Não há codificações que precisamos aprender a ler na videografia, na fotografia, na dança, na encenação, nas artes plásticas, na música e na vida? Não precisamos saber associar os textos e enunciados aos contextos, para melhor entender as questões sociais, políticas, estéticas e comportamentais?

 

A revolução tecnológica principiada no século XX nos trouxe o rádio, o cinema, a televisão e, presentemente, os computadores que conectaram as pessoas globalmente. Nesse contexto novo a comunicação envolve simultaneidade, imagens, sons, cores e conectividade. Não por acaso, no início do século XX surgiu a Semiótica, uma ciência que defende a pesquisa, estudo e leitura de todas as linguagens possíveis, englobando as formas de significação, de sentido e de estruturação das linguagens na comunicação.

 

A Semiótica é a ciência que estuda toda a linguagem. Lúcia Santaella, respeitada estudiosa da semiótica no Brasil, alerta para a necessidade de superar o condicionamento histórico que levou a linguagem verbal, oral ou escrita, a ser elevada a condição de saber de primeira ordem, relegando as formas de expressão que englobam a gestualidade, as imagens, os sons, os cheiros e o paladar a saberes de segunda ordem. É necessária uma leitura que considere os vários aspectos comunicantes.

 

Leitura como diálogo

Roland Barthes, semioticista e crítico cultural francês, entende o texto como um jogo que não se limita ao território verbal como instância isolada, mas como diálogo com a imprevisibilidade da interpretação/fruição. Do ponto de vista do leitor, Barthes lembra que o texto é algo que “escrevemos em nós mesmos quando lemos” (“Escrever a Leitura”, in “O Rumor da Língua”, p. 41). Compara o texto a um tecido não-acabado, com a trama em seu entrelaçamento dependendo dos sentidos que lhe dariam seus leitores. Barthes questiona a tradição secular onde a leitura busca os interesses do autor e se esquece do leitor. Critica-a como sendo uma censura que recai sobre a circulação cultural, e um constrangimento imposto à formação do sentido, porque remete sempre a leitura à interpretação do que o autor teria querido dizer. Barthes lembra que a lógica da leitura não é só deduzir do texto as supostas intenções do autor, mas de associá-lo a “outras idéias, outras imagens, outras significações”.

 

Para Barthes, o texto é resultado de uma interatividade (“Quero dizer que toda leitura deriva de formas transindividuais”). Ele entende que esse conceito não apenas afirma a liberdade das leituras, mas remete ao trabalho de ler, em dois sentidos: 1) Ler é trabalhar o corpo para o apelo dos signos; 2) Essa leitura chama para a escritura, porque é interpretativa e colaborativa, abrindo os textos para os diálogos presentes em sua produção e em sua leitura.

 

O sociolinguísta russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) é outro estudioso que colabora para renovar a idéia de leitura. Seus estudos sobre os enunciados - sejam textos literários, científicos, informativos ou falas da convivência cotidiana - os consideram como manifestação viva da língua e manifestação social da linguagem. Para Bakhtin, é necessário superar a herança linguística do século XIX, que tratava o locutor como se estivesse sozinho quando da composição de seus enunciados, apenas decidindo seus dizeres a partir do repertório da língua, considerando os destinatários como receptores passivos que se limitariam a decodificá-los.

 

Bakhtin considera que os outros, a quem se dirigem os enunciados, são receptores com atitudes responsivo-ativas, que concordam ou discordam, total ou parcialmente, e respondem, com enunciados ou atitudes. A atitude responsivo-ativa é, portanto, elaborada constantemente pelo receptor, numa compreensão responsiva. Mais do que isso, a atitude responsivo-ativa do receptor é também esperada, especulada e considerada pelo locutor-autor quando vai articular e emitir seu enunciado. Bakhtin pondera ser o locutor também um respondente, por considerar enunciados anteriormente existentes, estilos, gêneros, polêmicas, enfim, “cada enunciado é um elo da cadeia muito complexa de outros enunciados”.

 

A filosofia da linguagem de Bakhtin é toda baseada no dialogismo, ou, segundo suas próprias palavras: “viver significa participar de um diálogo: interrogar, escutar, responder, concordar etc. Neste diálogo o homem participa como um todo e com toda a sua vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, com o corpo todo, com as suas ações. Ele se põe todo na palavra, e esta palavra entra no tecido dialógico da existência humana”.

 

A importância da leitura como interatividade e abertura para linguagens plurais, onde se combinam textos, sons, imagens, degustação, volumes, gestualidades e dinâmicas sociais são nossa atualidade e a Semiótica nos ajuda a caminhar nela.