A morte do canário

A casa era uma dessas de conjuntos habitacionais: sala, dois quartos, cozinha, banheiro, quintalzinho pequeno e cimentado. A família: casal e filho adolescente. O pai, homem de pouca conversa, cumpridor dos deveres. Andava olhando para o chão, meio encurvado, desviando os olhos de quem pensava em cumprimento. A mãe, quase bonita, passa tardes na vizinha assistindo novela e conferindo o horóscopo em velhas revistas. De manhã, cuida da casa e prepara o almoço ouvindo o pastor no programa de rádio.

Aquela tarde de sábado estava pesada de calor, e o homem mais inquieto que de costume: o dia todo sem trabalho? Era aniversário do menino. Não falaria no assunto – livre para não abraçar. Pensou até que poderia sair e comprar alguma coisa, as pessoas costumam comemorar. Mas não sabia o gosto dele, nunca prestara atenção. E depois, homem não é para essas frescuras.

O filho entrou sorrateiro pelos fundos – a voz começando a engrossar – olhando de lado e adivinhando a presença do pai.  Encarou o menino com autoridade e indagou, ríspido, onde ele estava, que era um moleque à toa, um inútil que só dava desgosto, que devia estar trabalhando e não vadiando, que penteasse os cabelos, levantasse as calças, abaixasse os olhos, insolente. O moço foi para o quarto – melhor não responder.

A mulher interveio, quebrando a rotina da casa cheia de silêncios: Deixe o menino, é aniversário dele. Sua fúria então se voltou para ela, que defendia um vagabundo, que então comprasse sua comida e pagasse a luz e água que consumia – ele sim, cumpria seus deveres e não devia nada para ninguém. Por acaso estava faltando alguma coisa naquela casa? O que mais ela queria? Bem que desconfiava, essa história de passar batom toda vez que saia de casa, estava procurando o quê? E aquele vestido florido?  E não adiantava fazer  cara de choro, se achava ruim é porque devia.

A mulher foi para a cozinha esquentar o jantar – melhor não responder. O homem continuou reclamando da desordem da casa, da comida esquentada, da droga de vida, do filho e da mulher vadia.

Trancou-se no quartinho dos fundos: enfim alguma coisa para fazer. O lugar estava atulhado de pilhas de jornais e revistas, móveis velhos e produtos de limpeza. Olhou para o alto do armário de madeira, passando a mão por cima, procurando. No canto de sempre estava a chave da mala que ficava embaixo do armário. Puxou-a com cuidado e abriu, conferindo as várias caixinhas numeradas a lápis, dispostas de maneira impecável. Pegou a primeira delas, limpou com um pincel que ficava no canto, espremido ao lado de uma pinça com marcas de ferrugem. Abriu a caixa com cerimônia, experimentando um sentimento quase religioso.  Na primeira, muitas baratas. Todas do mesmo tamanho e espécie. Pegou uma pela patinha e admirou embevecido. Foi tirando uma a uma, colocando no chão, enfileiradas. Contou e recontou, observando detalhes – medo que sumam, mesmo sabendo mortas – aqueles dois não achariam a chave da mala, ele não permitiria. Colocou-as delicadamente na caixa, uma ao lado da outra, por ordem de tamanho, e tampou. Na segunda caixa, cheia de besouros, o mesmo alívio em saber que estavam todos lá, como havia deixado. Depois de observá-los com cuidado, contou-os falando alto,  colocando novamente na caixinha. Em cada caixa aberta, o ritual se repetia.  Conferiu tudo, fechou a mala e escondeu a chave no lugar de costume. Estava tudo lá, como tinha de ser.

Foi limpar a gaiola do canarinho, ainda restava sábado: Trocar o jornal, mudar a água, encher a vasilha de alpiste – sempre nesta ordem. Ouviu o soluço da mulher, cortando o silêncio costumeiro da casa. O filho emudecera no quarto – assim é que é o certo. O pássaro tinha um jeito pidão, insatisfeito. Não estava bom trocar a água e a ração? Num ímpeto, enfiou a mão na gaiola, trouxe o bichinho para fora das grades – tão pequeno e frágil. Com um gesto firme, pressionou o pescocinho do canário, apertando com o polegar e o indicador.  Ele nem piou: assim é que deve ser, quietinho.