Dona Nenê tem razão

por Neusa Fleury

 

Tem coisas que é bom não comentar, para não ser alvo de críticas ferozes. Mas de vez em quando alguém desobedece a este conselho e se posiciona, como a atriz Marieta Severo, a dona Nenê de “A grande família”, em recente entrevista. Ela lamentou que tantas conquistas da sua geração estejam se perdendo, abrindo espaço para um retrocesso que encontra guarida em uma sociedade que não questiona. Um exemplo é a proposta de redução da maioridade penal, uma solução equivocada para a violência e criminalidade entre os jovens. Marieta também se referiu à onda de conservadorismo que estamos vivendo, fruto da perigosa mistura de religião e Estado, que destrói a ideia de Estado laico acalentada por sua geração. Que Estado laico coisa nenhuma, o que vemos hoje são posturas retrógradas e moralistas também alimentadas e apoiadas por facções religiosas.

 

O fato é que está tudo interligado: este Congresso que temos, a violência, a indigência da vida pública, os índices alarmantes de analfabetismo funcional, os 74% de brasileiros que não leram um único livro no ano passado, a futilidade e a falta de educação generalizada.

 

Num cenário desolador como este, acontecem perdas lamentáveis, como o cancelamento da Jornada Literária de Passo Fundo, sobre a qual já comentei neste espaço. O trabalho de incentivo à leitura realizado pelos gaúchos e pela Universidade de Passo Fundo revelou-se neste deserto cultural em que vivemos. Não se trata apenas de mais um evento literário. A Jornada é um exemplo a ser seguido, um modelo de como fazer com que os jovens estudantes leiam.  O evento acontece a cada dois anos, e reúne escritores para conversar sobre o ofício e suas obras. Até aí nada de diferente do que se vê em outros eventos literários. A diferença é que os milhares de alunos que participaram ativamente da Jornada haviam lido e estudado antes a obra dos autores, e iam ao evento para conhecê-los de perto e conversar sobre o livro, motivados para outras leituras. Para alguns escritores, foi uma experiência que dificilmente conseguirão vivenciar, a de falar para 10 mil jovens leitores, por exemplo. Imaginem o quanto precisou haver de união entre os diversos segmentos daquela cidade para conseguir esta façanha. Eles poderiam divergir em outros assuntos, mas foram unânimes no esforço coletivo de incentivar a leitura entre seus moradores. Isto significa que pais, professores, empresários, profissionais liberais e todas as outras classes sociais se esforçavam para valorizar o trabalho que acontecia primeiramente nas escolas.

 

Conheci a professora Tânia Rosing, que durante todo o tempo esteve à frente deste projeto. Não é o tipo de mulher que faz concessões, que aceita desculpas para trabalho mal feito ou recusas em se fazer o que é necessário quando o assunto é educação. Reunir mais de 10 mil pessoas em um ginásio de esportes para falar de literatura não é para qualquer um, e foi tarefa que ela encarou por quase duas décadas. Não é à toa o que mostram as pesquisas a respeito da leitura, colocando o Rio Grande do Sul como o estado com maior número de leitores de todo o país.

 

Se a ousadia dos organizadores da Jornada de Passo Fundo provou que é possível sim formar leitores apesar de todos os outros apelos da vida contemporânea, o exemplo deveria ser seguido por outras regiões deste país que querem transformar em Pátria educadora. Mas não é o que acontece. Patrocinadores e governo se omitiram, e não houve recursos para realizar o evento este ano, que foi cancelado.

 

O que é que tudo isso tem a ver com a entrevista da Marieta Severo? Tudo, já que quem lê pouco ou não consegue interpretar corretamente um texto acaba concordando com soluções simplistas para problemas complexos, não percebendo o quanto é usado e abusado pelas propagandas políticas ou apelos religiosos. Enfim, não conhece o processo histórico que vem se repetindo perigosamente no país, com a volta de práticas autoritárias que não vão nos levar a um bom lugar.

 

Publicado no jornal NOVO em 29/05/2015.