Imprensa ourinhense – Um patrimônio que não se esgota

Publicado no Jornal Novo Negocião em 1º/03/2013

Quando se fala em preservação histórica pensamos logo em prédios antigos, geralmente arruinados pelo tempo. Ao contrário de centros históricos europeus, que descobriram sua vocação turística nas visitas de milhares de pessoas a seus prédios e ruas estreitas, isso no Brasil é raro. É comum moradores de cidades históricas mostrarem indiferença e até vergonha dos prédios antigos. Por falta de conhecimento, muita gente não percebe que a preservação não conflita com o desenvolvimento econômico. Pelo contrário, pode impulsionar.  Quem visita o centro do Rio de Janeiro percebe a riqueza econômica do período do império, ainda visível no esmero das fachadas, nas escadarias de mármore, nas pinturas e vitrais dos prédios. É como entrar numa máquina do tempo. Outro dia assisti na TV uma propaganda da prefeitura carioca, uma tentativa de evitar que foliões fizessem xixi nas ruas no período do carnaval. Parece absurdo que no século XXI ainda seja preciso ensinar esse tipo de coisas. Mesmo com a instalação de banheiros químicos, ainda existem muitos mijões usando calçadas como sanitários. Não se orgulham daquele patrimônio arquitetônico, nem avaliam o mal estar que o cheiro e a sujeira podem causar nas pessoas. E assim, vão contribuindo para a construção de uma identidade negativa para a cidade e visitantes, cegos da riqueza que possuem e não valorizam.
Fiz referência a prédios, que é uma noção visível de patrimônio histórico, quem tem nos prédios de museus e naquilo que eles abrigam uma consciência da necessidade de preservação.  Mas não podemos reduzir assim essa riqueza que toda cidade possui. O patrimônio é vasto, e envolve todos os campos da ação humana, visíveis ou não.
Uma boa notícia para os ourinhenses que valorizam a preservação de sua história é que coleções de jornais antigos serão digitalizadas e estarão disponíveis para consulta na internet. A Associação de Amigos da Biblioteca Pública, em parceria com a Prefeitura, está realizando o projeto que vai preservar um período da história da cidade, digitalizando o acervo de jornais do Museu Municipal. Se iniciativas como essas não acontecerem, acervos em papel como jornais, fotos e outros documentos, correm o risco de serem perdidos. A ação do tempo, o acondicionamento inadequado e a presença de insetos acabam por deixar o papel quebradiço, furado, a tinta vai sumindo, e com isso perde-se importante fonte de pesquisa.
O projeto acontece com recursos do Ministério da Cultura e da Prefeitura de Ourinhos. Lendo notícias da década de 60, por exemplo, é possível saber que o céu da cidade exibiu discos voadores numa noite de inverno, o que assustou os moradores, que em outra notícia comemoram a inauguração de um orelhão. Retratos de uma época, seus costumes, sua moral.
Ainda vai demorar uns meses para que todos os jornais possam ser lidos em um site aberto, beneficiando pesquisadores e pessoas interessadas em conhecer a história da cidade.  O bom disso é a oportunidade que se dá, pois a leitura desses jornais pode revelar muitas contradições, coisas que recheiam o processo histórico de qualquer comunidade. Será saudável romper com algumas verdades que classes dominantes tentaram impingir, e então finalmente poderá haver espaço para que outros possam ser ouvidos.  

Neusa Fleury - Diretora da Biblioteca Municipal “Tristão de Athayde”