A Foca

Imagine, caro leitor, você, morador de uma pensão, um belo dia  levantar-se de manhã, dirigir-se ainda sonolento ao banheiro, toalha no pescoço e escova de dentes na mão, abrir despreocupadamente a porta e dar de cara com uma foca dentro da banheira. Pense bem.

 

Pois foi exatamente isso que aconteceu com o Dr. João Bento na pensão onde morava, em São Paulo, quando era estudante, lá pelos idos de 1930.

 

E o que fez o jovem, que precisava se aprontar para ir à faculdade? Retrocedeu, fechou rapidamente a porta — não sem antes ver o bicho bufar e soprar na sua direção — e pôs-se a pensar se tinha mesmo visto o que vira ou se era coisa da imaginação de um sujeito ainda não muito desperto. Depois de alguns minutos, resolveu abrir a porta alguns centímetros e olhar pela fresta para ver se sua visão se confirmava. Confirmou-se. Lá estava a foca irrequieta dentro da banheira. Decidiu, então, que melhor do que ir assistir às duas primeiras aulas, era ficar meio disfarçadamente na porta do quarto observando a reação de cada um dos colegas pensionistas que, mal acordados, iam ao banheiro. Outros amigos do malfeito resolveram fazer o mesmo para gozar a situação. Quase ninguém foi trabalhar naquela manhã.

 

Nesse ponto, é lícito que o leitor esteja, algo incrédulo, indagando: “mas quem foi que resolveu acomodar uma foca na banheira do banheiro de uma pensão?”. O caso é realmente intrigante, mas não tem nada de fantástico.

 

A arte foi da autoria de um anão, o Anastácio, que, fazia pouco tempo, morava na pensão e trabalhava num circo. Era um circo pequeno que vinha mal das pernas e de repente entrou num galopante processo de falência. Sem receber seus salários, cada um dos empregados se apoderou do que pôde na tentativa de compensar pelo menos parte do que tinha para receber.

 

Ao pobre do anão sobrou a foca.