Pão com cereja

                Ela não era isso nem aquilo. Mulher apenas. Fascinante, ao contemplar uma galáxia ou se sentir a cereja no bolo. Apreciava um bom vinho, e lambia, com prazer, o pão amanhecido. Às vezes, fui seu súdito e seu carrasco. Dividimos, tantas vezes, o misterioso mundo das fantasias. Abrimos tantas portas e janelas que nos mostraram imagens irreais, além de nossa compreensão. Sim, para nós, o amor não seria um jugo; a solidão não seria um peso; o silêncio não seria uma lágrima... Haveria lógica em tudo isso?

                Não que eu fosse mocinho ou bandido. Ou era isso ou aquilo. Consciente, o destino inviabilizou o que seria a palavra amor. Queríamos mais! A cereja sem bolo, o pão amanhecido. Amor sem pressa às 4:20 da manhã. Sonhos, sortilégios, cabalas, poemas, o balé dos desesperados. Queríamos mais: parar o tempo no exato momento em que a vida produz outra vida. Queríamos muito mais: abrir a pesada cortina do tempo e ver o que pulsa e vibra e ama além de nossa primária compreensão. Foi pouco, sabemos. Mas foi ótimo. Ela foi a cereja no bolo e eu o seu pão amanhecido... Às 4:20 da manhã!

 

Cícero Pais (2012)