O filho de Monalisa

Cícero de Pais

Monalisa definitivamente não estava nem um pouco à vontade em Florença. A festas da alta sociedade,  as incontáveis vernissages a que comparecia para contemplar as obras dos maiores gênios da época, enfim, aquela roda viva do seu círculo de amizades deixava a modelo preferida de Leonardo Da Vinci em profunda depressão.

Mas ela foi salva por um email de sua prima Antonella que vivia no Rio de Janeiro há muitos anos. Monalisa tinha um grande sonho: conhecer o carnaval carioca, torcer pela Beija-Flor e subir num carro alegórico, coisas que Leonardo detestava, pois só tinha olhos e ouvidos para a grande arte do Primeiro Mundo. Se ele soubesse que Monalisa ia por os pés em um país subdesenvolvido, o barraco ia cair mesmo.

Monalisa não era nada boba, avisou ao Leo que passaria um mês na casa de um tio siciliano, arrumou as malas e, no outro dia, já estava sobrevoando a cidade maravilhosa.

Antonella, como se sabe, seria destaque num dos carros da famosa escola de samba e logo deu um jeitinho para que Monalisa aprendesse os primeiros requebros do paticum-bum-dum-dum. A modelo preferida de Da Vinci revelou-se em pouco tempo uma sambista fenomenal, parecia até que havia nascido para os requebros momescos e, para encurtar a história, só posso dizer-lhes que ela esqueceu Florença, Leonardo e todas aquelas coisas sagradas da Renascença.

No Rio, Monalisa apaixonou-se por tudo: pelas praias, pelos sambas de Noel, Chico e Paulinho da Viola e por um ritmista bem mais jovem que ela. Se o velho Leonardo soubesse...

Depois do Carnaval, Monalisa arrumou as malas e foi logo ao encontro do gênio turrão. Estava bronzeada e com um indisfarçável sorriso de felicidade nos lábios. Leonardo, ao vê-la, foi logo dizendo:

- Esse sorriso... enigmático...é justamente o que eu estava procurando! Fique assim, vou fazer os primeiros estudos. E diga-me, quem é mesmo esse seu tio siciliano?

Monalisa é a mais famosa obra de arte de todos os tempos. Alguns meses depois de posar para aquela obra prima, Leonardo percebeu que sua amada estava esperando uma criança. Arrependida, Monalisa contou-lhe a sua breve aventura no Brasil. Leonardo ficou muito pê da vida, quebrou telas, pincéis e até a coleção de CD’s de bossa nova que Bebel Gilberto lhe dera naquela festa oferecida pelo embaixador do Peru, em Roma.

O tempo, já disseram, é o senhor da razão. Leonardo perdoou a sua musa inspiradora e até fez um desenho dela com o filhote nos braços, um mulatinho de sorriso maroto e bom de bola. E como Monalisa adorava a arte e os artistas do seu tempo, batizou o menino de Miguel Angelo. Leonardo Da Vinci ficou furioso, mas isso é outra história.