Jacilene

Como outras cidades da região, a história de Ourinhos também foi marcada pela presença de famílias consideradas tradicionais pelo poder político e econômico que representaram. Porém, milhares de outras histórias de trabalho e são contadas por pessoas anônimas, que vieram de lugares muito diferentes. É o caso de Jacilene Pereira da Silva Muniz, nordestina do bairro de Beberibe em Recife, que vive em Ourinhos desde o ano 2000.

Depois de anos vivendo em São Paulo, a família veio de mudança para Ourinhos em busca da tranquilidade da cidade pequena. Apesar de ter saído de Recife com pouca idade, Jacilene se lembra das festas e dos pratos típicos que sua mãe fazia, e preserva até hoje os costumes e o sotaque nordestino. Ela participou no mês de abril do “Arquivo de Lembranças”, projeto desenvolvido pela Casinha da Memória que tem por objetivo registrar a memória dos nordestinos radicados na cidade. O encontro foi regado a cuscuz com manteiga, jerimun, castanha de jaca, pé de moleque, jambo, cozido, mugunzá e bolo de fubá com casca de limão.

As recordações do lugar onde nasceu são alegres. Jacilene conta sobre as festas nordestinas que marcaram sua infância: “Mal termina o Natal e o povo já está no embalo do carnaval, com a “Festa da Batata”, “O Homem da Meia Noite” e o “Galo da Madrugada”. A Festa da Batata acontece na Quarta Feira de Cinzas, e o pessoal ainda brinca até ao meio dia. Colocam o bacalhau aberto na vara, como uma bandeira bem grande, penduram batatas nessa bandeira, e eles pulam (canta em ritmo de frevo: “tãnananana”, explicando que “No meu bairro a gente brincava o frevo na rua, não ia para o clube, era carnaval de rua”.

As festas religiosas também deixaram boas lembranças, especialmente os terços no “Mês de Maria” (maio); logo seguidos pelas festas juninas. “As pessoas programam as festas na rua e fazem uma fogueira bem grande. Todo mundo dança, os moradores do bairro fazem os pratos e montam uma mesa; tem sanfona e tudo que tem direito. É como se fosse um carnaval, mas é uma festa junina”, conta.

As lembranças das festas nordestinas se misturam com a recordação da culinária do lugar. “De manhã a gente comia inhame, ninguém saía pra comprar pão. Fazia cuscuz com leite, ensopado no leite de coco, também a macaxera, que é a mandioca, com carne de sol assada. Tem aquele peixe miudinho, que parece manjubinha, chama caicó, conhece? Frita bem fritinho, é daquele que desmancha a espinha na boca, a gente come com batata doce e inhame, é uma delícia de manhã”, explica, emendando uma história na outra e contando sobre a escola onde estudou até a quinta série: “Tinha que usar uniforme. As meninas usavam aquele Conga azul, ou então um sapato Vulcabrás, que era um sapato social, mas baixinho. A saia era toda plissada, usava gravatinha e as meninas que já estavam se formando moças tinham que usar a combinação, que era um tipo de camisola por baixo, curtinha, pra não aparecer nada caso a blusa fosse transparente. Se a diretora ou a inspetora de alunos nos vissem sem a combinação, mandava voltar e se insistisse só voltava com a mãe. A gente rezava pra entrar e hasteava a bandeira, cantava o Hino à Bandeira, o Hino de Pernambuco e ainda cantava o hino da escola. Mas eu lembro só o da Bandeira Nacional”.

Jacilene ri quando conta da forma como saiu de Recife, indo trabalhar em São Paulo; “Eu fugi de ônibus, foram três dias de viagem. Queria ser professora, meu pai não queria. Não me deixava sair, era muito violento e me batia. Acabei indo pra São Paulo trabalhar numa casa de família. Tinha um namorado, o Cosme, mas o que eu queria mesmo era ganhar o meu dinheiro”.  Dois anos depois, o namorado veio ao seu encontro resolvido a se casar com ela. “Para São Paulo eu viajei com uma Coca-Cola família, um pacote de bolacha Treze de Maio e uma barra de doce. Três dias viajando, sem pegar nada da mão de ninguém”, lembra Cosme. A família do marido descende de espanhóis. Jacilene lembra uma passagem difícil: “A avó dele não se conformava dele namorar uma negra. Ele não tinha mãe, e quando me levou para apresentar a avó, ela falou assim: “Ué! Tanta moça bonita dos olhos azuis, dos olhos verdes por aí, e você vai namorar justa-mente com a negrinha?”. Cosme respondeu: “Vó, essa é a mulher que eu escolhi pra ser a mãe dos meus filhos”.

Jacilene sempre trabalhou para ajudar a criar os três filhos: “Em São Paulo trabalhei na Stanley, na Tupperware, como manicure, sacoleira, sempre me virei”, conta, orgulhosa.

Com os filhos crescidos, a vontade de viver num lugar mais sossegado foi se fortalecendo. “Eu vim porque diziam uma história de FAPI, eu queria conhecer essa tal FAPI... O primeiro ano foi lindo, gostei; o segundo eu já não gostei; o terceiro pior, agora não vou mais. Porque não gosto mais”

A entrevista com Jacilene foi feita pela agente cultural Fernanda Botelho. Observando a fruteira sobre a mesa, ela pergunta: “A abóbora se chama jerimun no nordeste?” Jacilene responde: “Sim, jerimun. Vou fazer um quibebe com leite de coco”. Fernanda se espanta: “Com leite de coco? Minha mãe não usa leite de coco. ...”

Jacilene esclarece:  “Lá é tudo de coco, feijão de coco, tudo de coco. Cozinha o jerimun que nem purê, tempera, doura o alho e a cebola e joga ali dentro. Aí pica o cheiro-verde e coloca o leite de coco. E dá uma mexidinha que nem purê, igualzinho”. Fernanda insiste: “Sim, mas minha mãe não usa leite de coco...” E Jacilene conclui, divertida: “É que vocês são ourinhenses...”

 

 

Texto: Neusa Fleury

Publicado na edição 39 do Jornal Balaio Cultural de maio de 2011