Seu Domingos Ângelo

Seu Domingos Ângelo e dona Lídia Batista Ângelo nos receberam numa tarde de março na cozinha da casa localizada na vila Margarida, com a mesa posta, café fresco e a memória pronta para ser vasculhada para o depoimento ao “Arquivo de Lembranças”. A vitalidade do descendente de italianos é denunciada no olhar determinado e na maneira como gesticula enquanto conta orgulhoso do trabalho na Rede Viação São Paulo - Santa Catarina, ainda no tempo dos ingleses em Ourinhos.

Antes de entrar para a ferrovia, em 1949, seu Domingos e dona Lídia viveram na Fazenda Lageadinho: “Lá tinha campo de futebol iluminado, campo de aviação, farmácia, açougue, médico, escola, rádio, água encanada e turbina de energia própria”. (Visitamos a fazen-da dias depois. Percebemos nas ruínas a importância daquele lugar, que nas décadas de 1940 e 50 apresentou vida social mais agitada do que na cidade).

Dona Lídia lembra o que pensou quando viu seu Domingos pela primeira vez: “Nossa... Moço bonito!” A aproximação aconteceu de maneira reservada, como era naqueles tempos. “Ele me pediu em namoro no baile de São João do Lageadinho”, lembra.Depois de quatro anos de namoro, veio o casamento que já dura quase 70 anos.    

“Entrei como mecânico de máquina na Rede”, lembra Domingos. Por causa da profissão, passava muitos dias fora de casa, prestando socorro a locomotivas quebradas ou acidentadas. Numa dessas viagens, recebeu uma visita inusitada: “O trem fez uma manobra na Serra Morena, no Paraná, e na batida perdeu o engate do vagão, a composição disparou e desceu a 200 Km/h. Na curva da serra os dezessete tanques explodiram, queimou um alqueire de mata virgem. Ficamos dezenove dias para o socorro. Eu era mais esperto um pouco, por isso me colocaram para cuidar do telefone que tocava a noite inteira. Fiquei deitado em cima de uma tora, e coloquei um lampião aceso atrás da minha cabeça. Escutei um fungado atrás de mim, olhei para trás, era a tal da pintada. Estava no meio da mata virgem e ela não me pegou por causa do lampião, eu já tinha essa experiência com meu velho pai. O lampião ainda existe. As onças estralam as orelhas atrás da gente, dá pra ouvir...”

Enquanto isso, dona Lídia se desdobrava para educar os cinco filhos do casal, “todos criados aqui no Pátio da Rede”. Para ajudar nas despesas da casa, dona Lídia costurava. O orgulho trans-parece quando conta: “Eu nunca deixei meus filhos entrarem na caixa da escola, sempre comprava o necessário. Eu costurava, aprendi com a professora japonesa, Mariko Fujita. Ela tinha uma escola em um sobrado de madeira com alojamento pra estudantes de fora, na Vila Odilon”.

Além das muitas histórias que envolvem a ferrovia e a vida na zona rural, o casal também lembra de fatos pitorescos que envolvem sacis, mulas sem cabeça e assombrações. Seu Domingos Ângelo jura que já viu de tudo nessa vida: “Aqui no fundo da AVOA tem um barracão. Eu trabalhava de noite, e tinha que revistar os vagões para ver se estava tudo certo. Uma noite eu estava com esse carbureto (mostra o lampião) e fui nos vagões olhar por cima e por baixo, ver se não tinha nenhum furo, era minha responsabilidade. O lampião estava aceso e me deu um arrepio assim esquisito, quando ouvi alguém falar: “O que tá acontecendo?” A voz repetia, só que eu não via nada. Falei: “O que você tá falando rapaz? Não te conheço”. Eu clareava com o lampião, mas não via ninguém. Era o saci. Ele é baixinho, que nem um anãozinho. Não sei se existe ainda hoje, por conta desses “trupé” que tem por aí com muita iluminação, eles somem pra outros cantos. E o povo também ficou mais religioso, incomoda essas coisas, eles fogem. Eu não tinha medo não, mas ali tinha mesmo o tal saci”.  

 

Texto: Neusa Fleury

 

Texto publicado na edição 43 do Jornal Balaio Cultural de setembro de 2011