Poesia Ourinhense


Poesia realmente combina com tudo

 

“A arte é a manifestação do belo”, disse Mokiti Okada, filósofo japonês morto em 1955. A citação é polêmica, se pensarmos sob o ponto de vista da beleza afinada com os conceitos estéticos de determinados períodos da humanidade. Como a idéia de beleza está em constante mudança, o que é considerado belo hoje, amanhã pode não ser. E nisso, como fica a arte? E manifestações artísticas como a “Guernica”, de Picasso, textos literários nem sempre amenos, experimentações musicais ou outras expressões artísticas que incomodam, provocando inquietações ou repulsa, sensações não exatamente ligadas à beleza?

Acho que entendi melhor a frase do filósofo japonês neste A(o)gosto das Letras, repensando o papel da poesia em nosso tempo. Elisa Lucinda, em seu “recital poético” - que emocionou o público presente no Teatro - intimou: “A poesia precisa estar em todos os lugares. Nas escolas, nas casas, nas ruas”. E a razão é simples: porque humaniza, nos remete a nós mesmos, faz com que a gente se veja sem as máscaras sociais que tanto oprimem. E mais: Por alguns momentos, quando a poesia nos toca, ficamos menos sisudos e formais, temos a chance de nos sentirmos pertencentes à mesma espécie.

Imagino que o “belo” a que Mokiti Okada se referiu possa ser esse movimento de olhar para dentro, de se reconhecer pertencente à raça humana, vivenciando essa sensação de igualdade que a arte pode provocar. Neste momento, a arte faz com que se manifeste toda a beleza de que somos capazes.

As atividades do A(o)gosto das letras foram marcadas pela diversidade. Em gêneros literários abordados nas palestras, nas inúmeras oficinas, exposições e na programação de shows no Teatro. Zélia Guardiano lançou seu primeiro livro, “Poesia combina com tudo”, e foi a poeta ourinhense homenageada este ano.

Como ensinou Elisa Lucinda, a poesia foi para a rua, em painéis expostos no Calçadão. A intenção era prestar homenagem os poetas da cidade, esses mesmos que, com sua arte, podem provocar situações de contato com a nossa beleza, como disse Mokiti Okada. As reações foram as mais diversas, já que não é comum nos depararmos com poesias no meio da rua. Teve quem se sentiu muito incomodado, talvez prefira a poesia escondida pela capa dos livros espremidos na estante. Mas muita gente, a maioria mesmo, comentou sobre como a arte inserida na paisagem urbana pode modificar por instantes a rotina das pessoas que passaram pelo Calçadão, e como isso pode ser bom.           O poeta Ferreira Gullar afirma, em texto que comenta sobre a utilidade da arte: “Na verdade, a arte - em si - não serve para nada, a não ser pela sua capacidade de deslumbrar e comover as pessoas. Portanto, se me perguntam para que serve a arte, respondo: para tornar o mundo mais belo, mais comovente e mais humano”.

Leitores, a vida é curta; se cortarmos os seus pedaços mortos, curtíssima ela fica. Vamos deixar espaço para a poesia?

 

Texto: Neusa Fleury

 

Texto publicado na edição 43 do Jornal Balaio Cultural de setembro de 2011

 

Legenda da foto:

Quem passou pelo Calçadão da Rua Paraná durante o 3º A(o)gosto das Letras

pode conferir a produção poética de autores ourinhenses