Aquilino Librelato

 

Antes de se decidir pela ferrovia, seu Aquilino Librelato fez de tudo um pouco. Trabalhou duro na roça desde criança, plantando, colhendo, tratando do gado. “Meu avô veio da Itália, mas meu pai nasceu no Brasil”, contou. Aprendeu a ler com o pai, já que não havia escola no sítio em que nasceu em 1917, num lugarejo “no meio do mato” chamado Armazém, em Santa Catarina. Com 18 anos decidiu botar o pé na estrada na companhia de um amigo, encarando a pé 21 dias de viagem até chegar a Porto Alegre, à procura de trabalho. Quando não achavam pouso, dormiam no chão, “por cima só da cobertinha...”. Para sobreviver, cortou lenha, cortou cana, carregou muito peso.

Foi numa tarde, cortando lenha em Santa Mariana, no Paraná, que a imagem do trem passando ao longe tocou o coração de seu Aquilino. “Eu via o trenzinho passando lá longe. Ia e voltava, e eu ficava pensando: eu vou trabalhar na Estrada de Ferro!”

Corria o ano de 1937, e durante algumas décadas o trabalho na ferrovia ocupou muito de seu tempo. Mas ele também formou sua família, tendo duas filhas do primeiro casamento e um casal da segunda união com dona Didi (Geni Pires Librelato), companheira há 63 anos.

Seu Aquilino começou a trabalhar na ferrovia como limpador de máquina a lenha, a “Maria Fumaça”, e foi sendo promovido, primeiro maquinista e depois inspetor da ferrovia. Como maquinista, lembra de um acidente ocorrido perto de Marques dos Reis: “Colocaram um prego na linha, bem na curva, e o trem tombou”. Apesar do susto ninguém se machucou gravemente. Wilson, o filho caçula de seu Aquilino, estava junto à mãe e ouviu quando contaram sobre o acidente. Dona Didi recorda: “O Wilson estava por ali, ouvindo... Sabe como é criança... Dei banho nele, coloquei pra dormir, ele tava agitado. Deu um febrão nele, ele via a máquina do pai passando na parede!”

As várias mudanças de gestão na ferrovia foram provocando problemas que acabaram resultando no fracasso desse meio de transporte em todo o país. Seu Aquilino explica: “Não sinto saudades. Trabalhei 34 anos, e me aposentei porque não suportava a quantidade de vadios e bêbados que entraram para trabalhar. Eu era o responsável, compreende? Eu queria que as coisas saíssem bem feitas, e foi ficando difícil”. Acrescenta: “Meu pai me ensinou a ler quando menino, e me lembro dele dizer: Olha meu filho, o mundo tem 509 milhões, 925 mil km quadrados, mas tem mais vagabundo do que gente trabalhadora. E é verdade, foi a coisa mais importante que ele me ensinou”.

A história de seu Aquilino Librelato foi gravada em audiovisual no mês de fevereiro, e compõe o acervo do projeto Arquivo de lembranças, do módulo “Memória Ferroviária”. O projeto é realizado pela Secretaria de Cultura, através da Casinha da Memória, inaugurada em dezembro do ano passado. Além dos artigos ferroviários, os nordestinos radicados em Ourinhos, também estão sendo ouvidos, já que este ano a Secretaria faz homenagem à cultura nordestina.

Se você trabalhou ou conhece alguém que tenha trabalhado na ferrovia e que esteja disposto a contar a sua história entre em contato pelo telefone 14 3302-3344.

 

Neusa Fleury

 

Texto publicado na edição 38 do Balaio cultural de abril de 2011

 

Legenda da foto:

‘Eu via o trenzinho passando lá longe. Ia e voltava, e eu ficava pensando: eu vou trabalhar na estrada de ferro’ (Aquilino Librelato)